O senador Flávio Bolsonaro concedeu sua primeira entrevista desde que deixou o Brasil e se estabeleceu nos Estados Unidos, afirmando ao jornal americano The New York Times, nesta quarta-feira (4), que organizou sua viagem por conta própria, sem receber ajuda de governos ou autoridades estrangeiras. O político, de 45 anos, decidiu sair do país após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva e ser informado de que teria 24 horas para entregar seus passaportes às autoridades brasileiras. Segundo a reportagem, a viagem percorreu aproximadamente 8 mil quilômetros, com passagens pelo Equador e pela Argentina, antes de terminar em Miami, na Flórida, cerca de 42 horas depois de seu desaparecimento da vida pública. Apesar das declarações de Flávio, autoridades americanas informaram ao jornal que o avião particular utilizado no trecho até Miami foi providenciado por um integrante da Casa Branca e que sua entrada nos Estados Unidos recebeu autorização direta do presidente Donald Trump. Na Argentina, um dos principais assessores do presidente do país também teria encontrado o senador em um aeroporto. Flávio negou qualquer participação de terceiros na organização da viagem e afirmou que tomou a decisão espontaneamente com sua esposa. O senador é alvo de investigações relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção, mas não foi formalmente acusado de nenhum crime. Durante a entrevista, declarou ser inocente e disse acreditar que seria condenado caso permanecesse no Brasil, acusando integrantes do Judiciário de perseguição política. Ele também relatou uma conversa com seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre uma pena de 27 anos em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado. Segundo Flávio, o pai demonstrou preocupação com seu futuro ao saber da determinação de entrega dos documentos.
Na entrevista de aproximadamente 75 minutos ao New York Times, Flávio Bolsonaro também voltou a questionar o resultado da eleição presidencial brasileira, apesar de reconhecer que dificilmente conseguirá revertê-lo. O senador afirmou que sua derrota para Lula teria sido matematicamente impossível e levantou suspeitas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, a apuração dos votos e a ampliação do horário de votação em determinadas regiões. A Justiça Eleitoral brasileira rejeitou as alegações de irregularidades, enquanto observadores internacionais independentes reconheceram a integridade do processo e dezenas de países aceitaram oficialmente o resultado. Uma das principais reclamações de Flávio envolve a decisão de estender o horário de votação em locais afetados por chuvas intensas e atrasos no transporte público. Segundo a reportagem, a medida havia sido solicitada pelas duas candidaturas e atingiu aproximadamente 34 mil votos, número insuficiente para alterar o resultado, já que Lula venceu por uma diferença de 4,4 milhões de votos. Mesmo assim, o senador ampliou suas acusações, mencionando supostas adulterações de votos e uma alegada falha de segurança no local onde estavam computadores utilizados na apuração, hipótese já desmentida pelas autoridades eleitorais. Flávio também criticou os gastos públicos durante a campanha e afirmou que o governo federal teria favorecido a candidatura de Lula. O jornal destacou que as declarações representam uma mudança em relação à postura anteriormente mais moderada do senador sobre o sistema eleitoral, aproximando seu discurso das acusações feitas por Jair Bolsonaro após a derrota presidencial de 2022. Diferentemente daquele período, entretanto, a contestação de Flávio não provocou grandes manifestações populares, e dirigentes de seu próprio partido reconheceram o resultado eleitoral. O senador agradeceu a Donald Trump pela autorização para permanecer nos Estados Unidos e considerou adequada a postura do presidente americano, que evitou reconhecer publicamente a vitória de Lula e classificou a eleição brasileira como estranha.
Flávio Bolsonaro afirmou que pretende continuar participando da política brasileira enquanto estiver nos Estados Unidos, apoiando aliados e defendendo propostas como a redução da maioridade penal e a concessão de anistia a Jair Bolsonaro e aos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. Ele também declarou que buscará contestar judicialmente a vitória de Lula, embora admita que as possibilidades de sucesso sejam pequenas. Questionado sobre a possibilidade de pressionar o governo Trump a adotar novas medidas contra o Brasil, o senador evitou responder diretamente. A reportagem lembrou que a administração americana já utilizou tarifas comerciais e sanções como instrumentos de pressão relacionados ao processo judicial contra Jair Bolsonaro e que, neste ano, classificou as duas maiores organizações criminosas brasileiras como grupos terroristas. Flávio também demonstrou interesse em um possível encontro com Trump durante um evento da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), previsto para ocorrer em Mar-a-Lago, apesar de o presidente americano ter afirmado anteriormente que não planejava recebê-lo. De acordo com o New York Times, Flávio, sua esposa e suas duas filhas receberam autorização para permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano, por meio de uma condição migratória temporária geralmente concedida por razões humanitárias. A família ainda não definiu onde irá morar definitivamente, embora a Flórida tenha sido sugerida por aliados como uma possibilidade. Seu irmão Eduardo Bolsonaro vive atualmente no Texas e, segundo a reportagem, recebeu recentemente autorização de residência permanente no país. A situação política de Flávio também poderá mudar em janeiro de 2027, quando terminará seu mandato de senador e ele perderá a imunidade parlamentar, ficando sujeito a possíveis processos judiciais relacionados às investigações em andamento. Apesar de reconhecer que precisará reorganizar sua vida fora do Brasil, o político afirmou que espera permanecer no exterior apenas temporariamente e não descartou uma nova candidatura à Presidência caso tenha oportunidade de disputar outra eleição.