Dólar dispara mais de 10% e Ibovespa despenca após reeleição de Lula

Por Márcio Jandrey, Portal América.

O dólar disparou e a Bolsa de Valores brasileira registrou uma queda histórica nesta segunda-feira (26), em meio à reação do mercado financeiro à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato. Por volta das 10h50, a moeda norte-americana avançava 10,28%, cotada a R$ 5,5063, depois de atingir a máxima de R$ 5,6048 durante a manhã. No mesmo horário, o Ibovespa, principal índice da B3, recuava 16,59%, aos 171.061 pontos, após alcançar a mínima de 169.516 pontos. A intensidade das perdas levou a Bolsa brasileira a acionar o mecanismo de proteção conhecido como circuit breaker, interrompendo as negociações por 30 minutos ainda nos primeiros minutos do pregão, quando a desvalorização ultrapassou 10%. O dispositivo é utilizado para suspender temporariamente as operações durante quedas acentuadas, permitindo que os investidores reavaliem suas decisões e reduzindo o risco de negociações desordenadas. Pelas regras tradicionais da B3, uma queda de 15% pode provocar uma segunda paralisação, desta vez de uma hora, enquanto uma desvalorização de 20% pode resultar em uma terceira interrupção. O episódio marcou o retorno do mecanismo de suspensão das negociações, que havia sido utilizado pela última vez durante a crise provocada pela pandemia de Covid-19, em 2020.

A forte instabilidade foi provocada principalmente pelo resultado do segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25), quando Lula derrotou o senador Flávio Bolsonaro com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% do adversário, considerando quase a totalidade das urnas apuradas. Como grande parte das pesquisas divulgadas nas semanas anteriores apontava vantagem de Flávio Bolsonaro, a vitória do atual presidente surpreendeu parte dos investidores e provocou uma revisão das expectativas para os próximos quatro anos. Entre as principais preocupações estão a condução da política fiscal, o crescimento da dívida pública, o controle das despesas governamentais e os possíveis impactos sobre a inflação, os juros e o câmbio. Segundo Gabriel Mollo, analista da Daycoval Corretora, a credibilidade das metas fiscais será determinante para a confiança dos agentes econômicos no próximo mandato. Por outro lado, Jason Vieira, economista-chefe da Lev DTVM, destacou que a equipe econômica sinalizou a possibilidade de apresentar uma proposta de emenda à Constituição para revisar gastos obrigatórios e buscar o centro da meta fiscal. A instabilidade também atingiu os ativos brasileiros negociados no exterior: o EWZ, principal fundo de índice que acompanha ações de empresas brasileiras em Nova York, registrava queda de 26,16% antes da abertura do mercado norte-americano. Outro fator de incerteza é a possibilidade de contestação judicial do resultado eleitoral, após Flávio Bolsonaro não reconhecer a derrota e anunciar que pretende solicitar a anulação da eleição, questionando a decisão que prorrogou o horário de votação em determinadas localidades.

Além da reação às eleições, os investidores acompanham indicadores econômicos nacionais e decisões de política monetária no exterior, que podem ampliar a volatilidade dos mercados nos próximos dias. No Brasil, o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, reúne projeções para inflação, juros, câmbio e crescimento econômico, mas a edição desta segunda-feira ainda não incorpora os efeitos da vitória de Lula, pois as estimativas foram coletadas até a sexta-feira anterior à votação. Dados sobre confiança dos investidores e investimento estrangeiro direto também estão no radar. No cenário internacional, a atenção se concentra na decisão de juros do Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, prevista para quarta-feira, diante da possibilidade de um novo aumento das taxas norte-americanas. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão também realizarão reuniões, com expectativa de manutenção dos juros. Paralelamente, os preços do petróleo recuavam em meio aos esforços diplomáticos para reduzir as tensões da guerra entre Estados Unidos e Irã. Por volta das 10h40, o barril do Brent caía 1,20%, para US$ 115,32, enquanto o WTI registrava baixa de 1,74%, cotado a US$ 101,47. Apesar da turbulência brasileira, as principais bolsas dos Estados Unidos e da Europa operavam em alta no mesmo período: o Dow Jones avançava 0,38%, o S&P 500 subia 0,21% e o Nasdaq registrava ganho de 0,27%. Na Europa, os índices DAX, CAC-40 e FTSE 100 também apresentavam valorização, evidenciando o contraste entre a forte reação dos ativos brasileiros ao resultado eleitoral e o desempenho dos principais mercados internacionais naquela manhã.

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