O drama de Kayla ilustra uma das maiores crises de saúde pública da história dos Estados Unidos: a epidemia do fentanil. Aos 18 anos, ela experimentou a droga pela primeira vez e mergulhou em uma dependência imediata, típica do opioide 50 vezes mais potente que a heroína. As pílulas que a tornaram viciada, provavelmente fabricadas no México, simbolizam um comércio que o presidente Donald Trump prometeu combater com rigor, utilizando inclusive forças armadas para interceptar o tráfico nas fronteiras. A dependência de Kayla quase lhe custou a vida, mas ela conseguiu encontrar uma saída por meio de programas inovadores de reabilitação na Carolina do Norte, um dos estados que lideram a queda nas mortes por overdose, que diminuíram em 35% em 2024.
Grande parte dessa mudança se deve a políticas de redução de danos e a programas como o LEAD (Law Enforcement Assisted Diversion), que unem forças policiais e instituições de saúde pública. Em vez de criminalizar dependentes, essas iniciativas os encaminham para tratamento e reintegração social. Foi assim que Kayla conseguiu deixar as ruas, limpar seu histórico criminal e se formar como auxiliar de enfermagem. O uso de medicamentos como metadona e buprenorfina, amplamente empregados para combater a abstinência, também tem desempenhado um papel crucial na recuperação de milhares de pessoas. Somente na Carolina do Norte, mais de 30 mil pacientes ingressaram em programas de tratamento em 2024, e o número continua crescendo.
Por trás desses resultados positivos, no entanto, há desafios complexos. A manutenção dos tratamentos depende de financiamento público, algo que pode ser ameaçado pelos cortes no Medicaid propostos no governo federal. Mesmo assim, histórias como a de Kayla mostram que a esperança é possível. Hoje, ela sonha em trabalhar em um hospital e inspirar outros dependentes a buscarem ajuda. “Eu me sinto mais viva do que quando consumia fentanil”, diz. O caminho da recuperação é longo, mas a combinação entre políticas eficazes, apoio social e determinação individual tem provado que é possível virar o jogo contra a epidemia que já tirou mais de 100 mil vidas por ano nos Estados Unidos.